A MUDANÇA


As mudanças eram boas ou ruins? - ela se perguntava.

Apesar de não saber a resposta, ela até mesmo esperava pela próxima mudança em sua vida, ela tinha decidido se manter desperta para poder pegar de surpresa quando a mudança lhe atravessasse a porta da frente.

A mudança, sabia ela, não se intimidava, entra mesmo pela porta principal, assim como a morte ela apenas invade, acha que é de casa, se sente íntima da pessoa a qual ela vem perturbar.

Mas ela, a pessoa que se perguntava, achava que dessa vez ia ser diferente.

Ela acreditava piamente que ia pegar de surpresa a mudança, ela ia observar com cuidado cada diferença, cada transformação, cada passo dado e cada metamorfose que viesse a acontecer em seu interior.

Ela estaria com o sono em dias, estaria bem desperta quando qualquer coisa que não fosse o habitual lhe ocorresse.

Ela teria hábitos, contaria as horas e faria tudo cronometrado, de forma que qualquer deslize seria por ela notado.

A vida poderia ser percebida aos mínimos detalhes, e ela estaria apenas aguardando quando a mudança viesse lhe fazer uma nova visita.

Mas ela sabia que poderia demorar dias, meses, anos ou até mesmo horas.

Apesar disso, ela acordava cedo todos os dias, sentava na cadeira diante de sua mesa e lia, e pesquisava, e escrevia e tentava encontrar meios de fugir do inevitável, por mais que o inevitável fosse por ela aguardado.

Como pode alguém ter tanto medo de algo que é certo? Como pode alguém viver sob constante pressão, a espera de algo que parece ser tão singular?

As mudanças ocorrem desde nosso desenvolvimento embrionário e só para quando morremos, por que a mudança assusta tanto?

Acostumados a ambiente artificiais, ares condicionados, chuveiros elétricos, achamos que podemos controlar cada detalhe e cada sensação nas nossas vidas.

Cortamos as plantas, mudamos o canal, agimos diretamente sobre a vida, mas a verdadeira mudança é descontrolada, é selvagem e ela é livre.

A mudança vem pra quebrar todas as regras impostas na sociedade criada pelos homens, a mudança impõe a verdade.

Ela deixa que nos enganemos achando que temos o controle sobre alguma coisa, mas não temos.

Quando ela chega e toma para si seu poder de agir inesperadamente, nos deixa abalados, sem rumo, desorientados quando parte.

Por isso, pra evitar o vazio e a desorientação, é que a pessoa que se perguntava acordava cedo todos dias, sentava na cadeira diante de sua mesa e lia, e pesquisava, e escrevia e tentava encontrar meios de fugir do inevitável, por mais que o inevitável fosse por ela aguardado.

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