A Amargura
Quando eu despertei, muita coisa mudou. Me senti chegando de uma viagem ou acordando de um coma, senti como se eu tivesse passado tanto tempo longe que não reconhecia mais os moradores daquela cidade, nem as próprias ruas, nem a mim mesma.
Muitas coisas deixaram de fazer sentido, assim como várias lembranças de um passado rebelde voltaram a tona, afastando os pensamentos mais recentes que queriam se sobressair como reis num mundo movido por injustiças, talvez até seu lema fosse centrado em esquecer as raízes e focado no valor comercial de tudo.
Não sei a razão, mas costumo me iludir por aquilo que brilha, por aplausos, por reconhecimento, por que necessitamos da aprovação dos outros e por que nos iludimos com coisas tão banais?
Quando os portugueses chegaram com espelhos os índios se maravilharam. Será as raízes indígenas ainda no meu sangue?
Crianças com baixa auto-estima querem fazer algo por aprovação, o sucesso no mundo dos homens é julgado pelo valor das coisas decidido entre os próprios homens.
Atores num teatro vivem pelo aplauso da plateia que tem o poder de julgar se o seu melhor foi o suficiente.
A arte pode ser contraditória, ao mesmo tempo que ela liberta ela aprisiona. Assim como a moda, a beleza, o dinheiro, o sucesso, a riqueza.
Até ideais positivos tem consequências negativas, não são apenas os sentimentos propriamente negativos que podem nos fazer mal.
Como superar quando alguma coisa simplesmente não faz mais sentido?
E é ruim ser amargurada, parece que é você que está errada diante de algo que é tão certo.
Quando você é a única a enxergar o mal, o errado, o tóxico, quando você desperta num mundo enganado é perigoso ser julgada como louca.
Mas foi só a ilusão que acabou, mesmo que isso te torne a vilã. Há coisas nessa vida que simplesmente nos fazem parecer que estamos erradas quando na verdade aquela é a nossa verdade.
Afinal, o que caracteriza algo é o meu ponto de vista, é a minha experiência com aquilo que vai transformar meu sentimento em orgulho ou amargura, aceitação ou negação.
Eu queria poder abrir os olhos de todos, mas se nem Deus faz isso pra nos levar pro lado dele, porque eu faria?
Entender que o outro também deve errar é uma luta que eu travo dentro de mim mesma. A história caminha pra frente e o que hoje é permitido amanhã pode não ser mais, as ideias são fluidas e se transformam, evoluem.
Só nos resta nos agarrar as ideias que achamos serem as mais certas, lutar pelos nossos direitos e tentar superar os nossos traumas, por que infelizmente o mundo está cada vez mais individualista e você terá sorte se encontrar alguém nessa vida que lhe dará a mão ao invés da indiferença disfarçada de preocupação.



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